Santa Maria da Vitória (BA) – A 53ª etapa da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) do Rio São Francisco, na Bahia, tem trazido à tona uma realidade alarmante que vai muito além do resgate de animais silvestres. No centro de tratamento provisório montado em Santa Maria da Vitória, o diagnóstico da Equipe Fauna revela que a falta de conhecimento no manejo deixa marcas profundas e, muitas vezes, irreversíveis na saúde e na qualidade de vida dos espécimes resgatados ou entregues voluntariamente.
O “combo” invisível dos maus-tratos
Para a equipe técnica da FPI, existe uma falsa percepção de que o crime de maus-tratos, em animais silvestres, está associado apenas a agressões físicas diretas. Na prática, o sofrimento animal começa no manejo: cativeiros sem higienização correta forçam os animais ao contato constante com as próprias fezes, rações mofadas e água parada com limo.
“Muitas vezes as pessoas capturam ou compram esses animais porque acham bonito ou gostam do canto, mas não conhecem suas reais necessidades”, destaca Mylla Roberta, coordenadora da equipe Fauna Base.

Esse desconhecimento gera impactos severos no estado geral dos animais:
• Obesidade severa: Passeriformes (pássaros de pequeno porte) chegam frequentemente obesos devido a dietas baseadas unicamente em sementes altamente calóricas combinadas com o espaço restrito de gaiolas que impedem a movimentação.
• Desnutrição e doenças: o ambiente insalubre faz com que os animais parem de comer, desenvolvam problemas severos nas penas e fiquem extremamente magros.

Comida humana: o perigo no prato dos animais silvestres
Um dos pontos mais críticos identificados pelos veterinários e biólogos é a alimentação inadequada. É comum encontrar recintos com restos de arroz, feijão, cuscuz, macarrão e pão, itens totalmente incompatíveis com o organismo dessas espécies. Em um dos acolhimentos recentes, uma gaiola com duas aves continha um pedaço de pão como única fonte de alimento.
No caso dos jabutis, o mito de que eles se alimentam apenas de alface e tomate causa danos severos à estrutura física. Na natureza, esses répteis necessitam de uma dieta rica em proteínas e cálcio, incluindo frutas, folhas em decomposição e até pequenos vertebrados. A falta desses nutrientes altera diretamente o desenvolvimento e o formato do casco dos animais criados em cativeiro (na natureza seus cascos são lisos e em cativeiro apresentam enrugamento).

Sequelas permanentes impossibilitam o retorno à natureza
Os exames clínicos detalhados na base fauna da 53ª FPI/BA evidenciaram casos graves de mutilação e deformidades físicas decorrentes da posse ilegal. Entre os registros mais preocupantes, destacam-se:
• Corte incorreto de asas: Duas araras-canindés (Ara ararauna) resgatadas sofreram cortes severos nas penas das asas. O procedimento, feito de forma grosseira, pode atingir a parte óssea, gerando lesões permanentes que inviabilizam o voo e impedem que retornem à natureza.
• Fratura de quilha: Um periquito-verde (Brotogeris tirica) foi resgatado com uma fratura severa, já cicatrizada, na região do peito (quilha). O impacto sofrido pode ter comprometido a musculatura peitoral da ave, afetando drasticamente sua capacidade de sustentação em voo e até a respiração.

- Deformidades em jabutis: Dos cinco jabutis acolhidos nesta semana, um apresenta uma lesão grave na perna que o impede de caminhar normalmente, fazendo com que arraste e bata o casco no chão ao se movimentar. Os demais apresentam alterações anatômicas na carapaça por erro nutricional.
• Mutilações e fraudes: A equipe também identificou animais com hipercrescimento de bico, dedos amputados e até o uso de “anilhas falsas” (feitas com pedaços de canudos plásticos) inseridas nas patas para tentar forjar uma suposta legalidade.
Estresse psicológico no cativeiro
Além das dores físicas, o sofrimento psicológico é evidente. Muitos animais chegam apresentando comportamentos repetitivos e estereotipados devido ao estresse crônico, como dar voltas incessantes na gaiola e se chocar contra as grades.
O balanço técnico reforça a gravidade do tráfico e da criação ilegal: ao serem retirados de seu habitat e submetidos a um manejo inadequado, muitos desses indivíduos perdem definitivamente a chance de reabilitação para soltura, restando-lhes passar o resto da vida sob cuidados humanos permanentes em centros especializados.

A equipe Fauna da FPI/BA é formada por três equipes e com um total de 36 agentes. Neste etapa, as equipes resgataram 411 animais silvestres, destes, 175 serão devolvidos à natureza e 218 serão encaminhados ao Cetas (Centro de Triagem de Animais Silvestres).
A Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais) em seu Artigo 29 determina as sanções para quem cria, mantém em cativeiro ou comercializa animais silvestres sem a devida licença.
Fotos: Henrique F. Marques
Sobre a FPI
Criada na Bahia em 2002, a FPI do Rio São Francisco é um programa coordenado pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA), pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). De caráter multidisciplinar, a iniciativa tem como objetivos melhorar a qualidade e quantidade dos recursos hídricos na bacia e a vida das comunidades e povos tradicionais, além de combater os crimes ambientais, os impactos dos agrotóxicos e defender a preservação do patrimônio arquitetônico, cultural e imaterial da bacia.
O programa avançou e hoje a FPI do São Francisco também é realizada nos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Minas Gerais. Em 2024, o programa foi o grande vencedor do Prêmio Innovare, em parceria com o Ministério da Justiça, a Advocacia-Geral da União, associações jurídicas e conselhos de justiça do país, com apoio do Grupo Globo, na categoria Ministério Público, a mais alta honraria concedida ao Sistema de Justiça brasileiro. Em 2020, a FPI do Rio São Francisco já havia sido premiada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) como o maior indutor de políticas públicas do país.
Conheça as instituições e entidades da sociedade civil parceiras da FPI/BA:
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