Programa socieducador atua pelo reconhecimento das práticas do ofício de escultor de carranca como patrimônio cultural
Santa Maria da Vitória/BA – “Das mãos de Guarany surdiram monstros que, colocados na proa dos barcos, protegiam os viajantes contra os terrores do rio. Eram monstros benignos, conjunção de forças milenares enlaçadas na mente de Guarany. As águas purificaram-se, as viagens tornaram-se festivas e violeiras. E ninguém temia a morte, e o louvor da vida era uma canção implícita no cedro das carrancas”. Nos versos do poeta Carlos Drummond de Andrade, a apresentação do mestre carranqueiro Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, natural de Santa Maria da Vitória, e uma das maiores referências do ofício. A Fiscalização Preventiva Integrada da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco na Bahia (FPI/BA), em sua 53ª etapa, veio à cidade do artista para documentar o legado de Guarany e de outros mestres carranqueiros para eternizar as práticas do ofício não só em poesia, mas também como patrimônio cultural.

A equipe Patrimônio Histórico e Cultural da FPI/BA está à frente do levantamento de informações que embasará um estudo maior sobre o ofício de todos os mestres carranqueiros (pessoas dedicadas prioritariamente à arte popular, com estilo próprio e reconhecimento da coletividade) e carranqueiros (escultores de carrancas que trabalham com outras peças) residentes na região banhada pelo Rio São Francisco. A frente é formada por técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Ministério Público do Estado da Bahia, contando ainda com a colaboração da antropóloga Adriana Cerqueira.
Em Santa Maria da Vitória, a FPI/BA entrevistou quatro carranqueiros que dão continuidade à tradição: João Sousa, 75; Francisco Carlos de Araújo Castro, o Branco, 66; Josenilton Alves de Castro, o Nilton, 64; e Cassius Fabiano Ferreira, 45, neto de Tutu Ferreira, este mestre carranqueiro consagrado na região. Também foi entrevistado Francisco Mallero, o Chico Mallero, 62, de São Félix do Coribe.
Os escultores relataram sobre as práticas do ofício, características das suas obras, história da manifestação cultural, como se organizam enquanto mestres carranqueiros, dificuldades e riscos identificados, entre outros assuntos relacionados à arte popular das carrancas.
“Até então, fomos ao encontro de um carranqueiro de São Félix do Coribe e quatro de Santa Maria da Vitória, lugar onde o ofício tomou proporções internacionais por conta do Mestre Guarany, para subsidiar nosso estudo de patrimonialização do bem cultural. Ao entrevistar os detentores dos saberes que envolvem a arte de esculpir carrancas, identificamos um grande potencial de reconhecimento das práticas do ofício como patrimônio cultural em nível municipal, estadual e até federal. Estamos falando de práticas que representam a identidade, a memória e as histórias de diversos povos, principalmente os que integram o Velho Chico”, afirmou o coordenador da equipe, o técnico do Iphan João Gustavo Andrade.
A atuação da FPI/BA na documentação do legado dos mestres carranqueiros e carranqueiros da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco acumula entrevistas com escultores dos municípios de Juazeiro, Jaguarari, Ibotirama e agora Santa Maria da Vitória.
Com a palavra, os carranqueiros
Decano dos carranqueiros entrevistados, João Sousa afirma usar madeira cedro, imburana e tamburi para esculpir as carrancas, que, depois, são pintadas com tinta à óleo. “A criação vem da mente da gente, e a madeira ajuda”, revela o escultor sobre seu processo criativo. Ele dispõe de peças que vão de R$ 150 a R$ 1200, a depender do tamanho.

O acabamento das carrancas é fundamental para o carranqueiro Branco. Em sua oficina, onde também trabalha com peças diversas de marcenaria, ele não dispõe de peças prontas para vender. “Mas se você me encomendar alguma, paro tudo que estou fazendo e entrego a carranca no dia em que combinarmos, com o acabamento que a peça exige. Se a arte não tiver acabamento, para mim não é arte”, diz o escultor.
Em comum, os dois artistas populares com mais de 50 anos na produção de carrancas demonstram preocupação com a continuidade do ofício de carranqueiro. Segundo eles, a juventude passou a se interessar por outras atividades e expressões artísticas, distraindo-se muito com o celular.
“Aprendi fazer as minhas vendo Guarany fazer as deles, então gostaria que me vissem fazendo também. Ensino para qualquer pessoa que quiser aprender”, garante João Sousa. “No dia em que der na cabeça deles [adolescentes e jovens que tiverem interesse em dominar a prática do ofício] ‘eu vou aprender’, venham aqui e peçam orientação. Mostro como faço, corto direitinho, faço assim, assim, assim”, afirma Branco.

Risco de extinção é real
Além dos cinco carranqueiros, os técnicos do programa conversaram ainda com o artista plástico Jairo Rodrigues. Ele detém a guarda do acervo pessoal do Guarany em Santa Maria da Vitória, com mais de cem itens do escultor, incluindo a carranca Bitazar, de 1964, a única do mestre carranqueiro disponível na cidade.
O artista plástico, que também é historiador, conserva peças de diversos carranqueiros de Santa Maria da Vitória, em especial o de familiares do principal artesão da memória carranca. Na relação de itens, há a mesa de trabalho do escultor Cornélio Biquiba dy Lafuente, pai de Guarany.
Jairo Rodrigues afirma que um dos seus sonhos é dispor de um espaço para fazer um memorial com o acervo de Guarany e dos demais mestres carranqueiros e carranqueiros da cidade. Ele lembra que tal espaço chegou a existir logo depois da morte do escultor, em 1985, mas, que, com o passar dos anos, perdeu força e restou a ele a guarda dos itens.
Contemporâneo de Guarany, Jairo Rodrigues torce para que a FPI/BA tenha sucesso na tentativa de garantir o reconhecimento das práticas dos mestres carranqueiros como patrimônio cultural.
“João Sousa, Branco, Nilton já têm mais de 60 anos. Estão idosos. Quem se tornou mestre, se tornou de modo autônomo e independente, sem ajuda de nenhum governo. Precisamos agora de políticas públicas que garantam e disseminem o ofício de carranqueiro, principalmente nas escolas”, defende o historiador.

No mesmo sentido, o coordenador da Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural reforça a relevância do estudo dos carranqueiros. “O risco desse ofício ser extinto é real, visto que a maioria dos mestres e demais escultores já se encontra com idade avançada, sem qualquer renovação. Em nosso levantamento para reconhecer o ofício de carranqueiro como patrimônio cultural, garantindo assim mais uma proteção à tradição de esculpir carrancas, não encontramos ninguém nos municípios por onde passamos que esteja acumulando o saber para dar continuidade a essa prática da cultura ribeirinha”, alerta João Gustavo Andrade.
Quem foi Guarany
Considerado o maior carranqueiro do Brasil, Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany nasceu em Santa Maria da Vitória em 1882, falecendo na mesma cidade em 1985. Dos 103 anos de vida, mais de 80 foram dedicados à escultura de carrancas na região do Médio São Francisco.
Quem primeiro passou a chamá-lo de Guarany foi seu pai, o também escultor, marceneiro, carpinteiro Cornélio Biquiba dy Lafuente, pela ascendência indígena. Foi com o genitor que o mestre carranqueiro aprendeu a transformar madeira em obra de arte. Vale ressaltar que historiadores como Jairo Rodrigues também apontam a ascendência africana de Guarany.
Esculpidas em pedaços de tronco de madeira cedro ou imburana, as carrancas de Guarany são marcadas pela cabeleira, que se assemelham a jubas de leões, cobrindo cabeça e pescoço. Outras características das peças são sobrancelhas arqueadas, olhos de homem e dentes animalescos. Em regra, o comprimento delas varia entre 40 e 50 cm, com diâmetro de 30 cm.
Guarany esculpiu sua primeira carranca em 1901, tendo por destinatário a barca Tamandaré. Depois não parou mais. Comerciantes da Bacia do Rio Corrente passou a procurá-lo para “proteger” as embarcações que atravessavam as águas do Rio São Francisco, num período de destaque do transporte fluvial, motor da vida econômica e social da região.
As carrancas de Guarany atendiam assim a fins comerciais e fins simbólico-ritualísticos, respectivamente por chamar atenção da população ribeirinha às embarcações que chegam e por defender a tripulação de criaturas perigosas.
A partir dos anos 40, a imprensa e a crítica artística descobrem a originalidade das carrancas esculpidas por Guarany. Com o sucesso que lhe acompanharia até o fim da vida, o mestre carranqueiro passa a produzir suas peças agora para colecionadores do Brasil e de outros países.
Artistas brasileiros consagrados reconheceram a arte popular de Guarany. Um deles foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, que, em 1985, escreveu a poesia Centenário em alusão aos cem anos de Guarany.

Sobre a FPI
Criada na Bahia em 2002, a FPI do Rio São Francisco é um programa coordenado pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA), pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). De caráter multidisciplinar, a iniciativa tem como objetivos melhorar a qualidade e quantidade dos recursos hídricos na bacia e a vida das comunidades e povos tradicionais, além de combater os crimes ambientais, os impactos dos agrotóxicos e defender a preservação do patrimônio arquitetônico, cultural e imaterial da bacia.
O programa avançou e hoje a FPI do São Francisco também é realizada nos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Minas Gerais. Em 2024, o programa foi o grande vencedor do Prêmio Innovare, em parceria com o Ministério da Justiça, a Advocacia-Geral da União, associações jurídicas e conselhos de justiça do país, com apoio do Grupo Globo, na categoria Ministério Público, a mais alta honraria concedida ao Sistema de Justiça brasileiro. Em 2020, a FPI do Rio São Francisco já havia sido premiada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) como o maior indutor de políticas públicas do país.
Conheça as instituições e entidades da sociedade civil parceiras da FPI/BA:
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