Mesmo com avanços, aterro sanitário ameaça saúde da população e Rio São Francisco

Compartilhe

Estrutura projetada mantém lixo a céu aberto, máquinas paradas e prazos descumpridos; Ministérios Públicos Estadual e Federal e órgãos ambientais terão reunião com gestores municipais no dia 8 de outubro

O que deveria ser a solução para o lixo de vários municípios segue como problema em Olho d´Água das Flores. O aterro sanitário construído em 2014, com previsão de durar até 2039, funciona de forma precária, apesar das melhorias na estrutura de tratamento dos resíduos. Foi o que encontrou a Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, ao retornar ao local depois das etapas do programa realizadas em 2023.

Crédito: Anderson Macena (@bambluck)

Em termos comparativos, em relação à visita anterior, a FPI constatou avanços no aterro, que é gerido pelo Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos (Cigres) da região leiteira de Alagoas. Uma das melhorias foi a disponibilização de uma nova lagoa para receber o chorume do lixo, que terá reforço de uma segunda unidade a fim de reduzir os danos ao meio ambiente.

Também foi apresentado um relatório técnico da recuperação do aterro sanitário. O documento feito por um consultor ambiental contratado pelo Cigres para prestação de serviço menciona a execução do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) do antigo lixão localizado no povoado de Gameleira, em Olho d’Água das Flores, onde vive uma comunidade quilombola.

No entanto, as melhorias foram insuficientes para o cumprimento da legislação vigente. Técnicos da FPI encontraram no aterro sanitário do Cigres um cenário de riscos à saúde da população e ao próprio Rio São Francisco. Resíduos a céu aberto, máquinas paradas, trabalhadores em condições inseguras, ausência de sinalização e até a presença de vetores de doenças foram apenas alguns dos problemas flagrados.

“Apesar dos avanços verificados em comparação a última fiscalização feita em 2023, haja vista que pudemos comprovar o encerramento do antigo lixão, muito ainda falta a fazer para chegarmos a uma operação eficiente do aterro sanitário”, disse o promotor de Justiça Alberto Fonseca, coordenador-geral da FPI em Alagoas.

Objetivando avançar nas ações de adequação, o recém empossado gestor do Cigres, o prefeito de Olivença, Josimar Dionísio, propôs à coordenação da FPI uma reunião com a finalidade de se definir uma agenda com ações, prazos e metas. Ela deverá ocorrer no dia 8 de outubro, com a presença dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, órgãos ambientais e os municípios consorciados.

TAC assinado, mas ignorado

Os fiscais da FPI encontraram um equipamento que precisa de mais investimentos e melhor gestão dos recursos públicos. Das cinco máquinas que deveriam dar suporte ao funcionamento do aterro, apenas duas estão ativas. Resíduos permanecem sem cobertura, servindo de alimento para moscas e aves. A vegetação tomou conta de acessos e tanques de monitoramento, e os trabalhadores convivem com a falta de estrutura e de segurança.

“Um aterro deveria ser um aliado da população, mas aqui ele se tornou fonte de perigo. O que encontramos foram falhas acumuladas e riscos evidentes. É urgente virar essa página”, disse Rafael Vanderley, coordenador da equipe de Resíduos Sólidos, Extração Mineral e Segurança de Barragens da FPI e representante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL).

Não faltaram alertas. Desde 2023, o consórcio que administra o aterro está sob o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC nº 42/2023) firmado com o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), justamente para corrigir falhas já identificadas. Houve avanços, porém, necessita-se maior empenho, segundo os órgãos de fiscalização.

Para a FPI, a situação requer celeridade e responsabilidade. “Não se trata apenas de aspectos administrativos, mas da proteção de vidas humanas e da preservação de toda a bacia hidrográfica. É imprescindível que o consórcio assuma plenamente suas responsabilidades e assegure o cumprimento dos prazos estabelecidos, de modo a garantir a efetiva execução dos compromissos firmados e resguardar o investimento público realizado neste empreendimento de grande relevância para os municípios da região”, destacou Vanderley.

Risco real à população e ao Velho Chico

O impacto não é apenas ambiental. O cenário do aterro coloca em risco direto a saúde pública. Resíduos mal manejados atraem animais transmissores de doenças, contaminam o solo, afetam a qualidade da água e comprometem a vida de comunidades inteiras.

Mais grave ainda é a ameaça ao rio São Francisco. O aterro, que deveria conter impactos, pode se tornar vetor de poluição em uma das principais bacias hidrográficas do país, atingindo não só os municípios consorciados, mas toda a região ribeirinha.

Fiscalização integrada, cobrança redobrada

A vistoria foi realizada pela equipe de Resíduos Sólidos, Extração Mineral e Segurança de Barragens da FPI, composta pelo Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL), Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL) e Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh).

O recado da FPI é claro: não há mais espaço para desculpas ou prorrogações. O prazo para reverter o quadro está correndo, e cada dia sem solução aumenta o passivo ambiental e o risco para quem vive na região.

Leia também outras notícias da 15a etapa da FPI AL

Saneamento básico ainda é desafio em municípios fiscalizados pela FPI

Clipagem da FPI/AL do dia 27/08/2025

Atuação rápida da equipe da FPI salva a vida de iguana com machucado na pata

Barragem Boacica apresenta falhas estruturais e segue sem plano de segurança, constata FPI

Perímetro do Gavião: primeiro projeto irrigado do Canal do Sertão promete transformar o semiárido alagoano

Clipagem da FPI/AL do dia 26/08/2025

Visita da FPI a comunidade quilombola em Jacaré dos Homens aponta desafios ambientais com prática tradicional

FPI constata riscos em barragem e irregularidades em piscicultura na bacia do São Francisco

Multas milionárias, embargo e até bloqueio de crédito: entenda os riscos de desmatar sem autorização

FPI reforça importância do monitoramento da água para consumo humano em Alagoas

Clipagem da FPI/AL do dia 25/08/2025

FPI do Rio São Francisco resgata 26 animais silvestres vítimas de maus-tratos em feira livre

FPI AL denuncia: falta de terra leva quilombolas a plantar em lixão

Fiscalização flagra lixão sem recuperação ambiental e esgoto lançado no São Francisco

Clipagem da FPI/AL do dia 24/08/2025

Na primeira semana de atuação, FPI Alagoas alcança mais da metade dos pontos de interesse previstos para 15ª etapa

FPI do São Francisco visita Pau Ferro, a mais nova comunidade quilombola certificada em Alagoas

Clipagem da FPI/AL do dia 23/08/2025

Proteção da água e saúde pública: FPI fiscaliza abastecimento por carros-pipa em Pão de Açúcar

Betoneira enferrujada era usada em laticínio insalubre na zona rural de Girau do Ponciano

Clipagem da FPI/AL do dia 22/08/2025

FPI promove educação ambiental que torna alunos guardiões da natureza em São José da Tapera

FPI do São Francisco visita possível sítio paleontológico em comunidade quilombola de Aguazinha, em Carneiros

Invasão compromete sistema de dessalinização em Olho d’Água das Flores, enquanto comunidade quilombola em Carneiros vira modelo de gestão

Clipagem da FPI/AL do dia 21/08/2025

FPI do São Francisco flagra irregularidades em criatório de aves em Arapiraca

FPI flagra lixão em São José da Tapera e aplica multa de R$ 80 mil

Municípios alagoanos recebem orientações da FPI para fortalecer política ambiental local

FPI flagra laticínio e pocilga clandestinos em Major Izidoro e recolhe quase uma tonelada de alimento impróprio para consumo

Clipagem da FPI/AL do dia 20/08/2025

Guardiões do Velho Chico: combate à pesca predatória protege vida e sustento no São Francisco

FPI em comunidades tradicionais: relatos reforçam urgência em saúde e educação em Pão de Açúcar

FPI em Alagoas leva educação ambiental a escolas e comunidades tradicionais em Palestina

FPI do São Francisco constata maior desmatamento já registrado durante as 15 etapas da fiscalização em Alagoas

FPI atua para combater trabalho análogo à escravidão em pedreiras

FPI do Rio São Francisco discute dignidade e políticas públicas com comunidade quilombola Cacimba do Barro, no alto sertão

FPI do Rio São Francisco interdita clínica veterinária em São José da Tapera por cirurgias irregulares de animais

Defesa da saúde pública: FPI impede venda de 368 litros de leite impróprio para consumo humano em Pão de Açúcar

FPI do Rio São Francisco dá início à 15ª etapa em Alagoas com fiscalização e educação ambiental para população sertaneja

15 etapa FPI AL

FPI Alagoas participa da primeira reunião interiorizada da Coetrae em Arapiraca

A FPI do São Francisco em Alagoas participou da 1ª reunião interiorizada da Coetrae em Arapiraca, que reuniu órgãos públicos e sociedade civil para discutir estratégias de combate ao trabalho escravo. O encontro fortaleceu a escuta de comunidades tradicionais e a interiorização das ações no estado.

Na primeira semana de atuação, FPI Alagoas alcança mais da metade dos pontos de interesse previstos para 15ª etapa

Na primeira semana da 15ª etapa, a FPI Alagoas alcançou mais da metade dos pontos de interesse previstos. Com cerca de 150 agentes em campo, as equipes atuaram no combate a irregularidades como laticínios clandestinos, desmatamento recorde, pesca predatória e transporte irregular de água, além de promover ações de educação ambiental e escuta de comunidades tradicionais.

Leia mais »